Cuzco Perú
A viagem pelo Vale Sagrado dos Incas é dessas que
ficam guardadas para sempre na memória. Os caminhos entre um povoado e
outro serpenteiam em meio à Cordilheira dos Andes, num trecho repleto de
símbolos de um tempo em que os incas estabeleceram na região o centro de
controle administrativo de seu vasto império.
Há muito o que ver e experimentar a partir de Cuzco, a
antiga capital inca e atual capital turística do Peru. Saltam aos olhos
do visitante exemplos e mais exemplos da fusão entre a arquitetura
pré-colombiana e a espanhola, num misto surpreendente de cidade colonial
e sítio arqueológico.
Pontuados por povoados tradicionais, os arredores de
Cuzco abrem ao viajante uma perspectiva única de interagir nos pueblos
com os descendentes históricos das diversas etnias que compuseram o
complexo mosaico cultural inca. É possível encontrar, em cada um, uma
história especial e um traço marcante.
Pisac é um deles. Sua praça principal está cercada
de árvores centenárias e ruelas de pedra por onde se esparrama a maior
feira de artesanato do Vale Sagrado. Todo domingo, centenas de turistas
passeiam pelo povoado, encravado a quase 3 mil metros de altitude na
província de Calca, a 32 quilômetros de Cuzco.
É uma festa de cores e tradições que se inicia por
volta das 5h30, com a chegada de camponeses e artesãos de comunidades
vizinhas. Eles trazem consigo todo tipo de artigo, incluindo o de comer.
Afinal, cada zona se dedica ao cultivo de um produto específico. São
famosas as frutas de Quillabamba, o milho de Urubamba e assim por diante.
O escambo é praticado a rodo. Um exemplo: os
habitantes das regiões altas se abastecem com os produtos cultivados
pelos habitantes das zonas quentes. E vice-versa. A troca de produtos
agrícolas recebe o nome de trueque.
Costume curioso, antes de dar início às vendas os
ambulantes fazem uma oração para que o dia lhes renda o que esperam.
Domingo, aliás, também é dia de celebrar uma missa em quíchua, o
dialeto ancestral, numa prova da idiossincrasia entre o catolicismo
imposto pelos ibéricos e os cultos indígenas.
Fazem muito sucesso entre os turistas os ponchos e as
peças trabalhadas em lã, como luvas, gorros e suéteres, assim como o
artesanato de cerâmica - especialmente o que reproduz símbolos incas, a
exemplo de colares e keros (os vasos cerimoniais). Também há muita
oferta em bijuterias de prata.
O vilarejo também está às voltas com ruínas incas.
Chamado de Pisac Velho, o complexo arqueológico é considerado um dos
mais monumentais da região por conta da composição ímpar entre suas
construções e o entorno do Vale do Urubamba, que o cerca. Feitas em
pedra polida, as construções de Pisac são admiráveis e estão cercadas
por atalayas (postos de observação para defesa). A região também está
repleta de andenes, terraços de dois ou três metros de largura
projetados para o plantio nas encostas montanhosas. Destaque para o
Intiwatana, uma impressionante obra considerada o Templo do Sol de Pisac.
Os mercados indígenas latino-americanos surgiram da
necessidade de os povos intercambiarem produtos que faltavam para uns e
sobravam para outros. Desde muito antes da chegada dos colonizadores
espanhóis em terras ameríndias o escambo já era uma instituição
comercial praticada em larga escala. Moeda não havia. A negociação
sempre foi baseada na troca. Até hoje, o costume perdura nas comunidades
mais isoladas por toda a vasta extensão da Cordilheira dos Andes e em
rincões da América Central.
Visitar os mercados indígenas é travar contato com os
costumes, as tradições e o modo de vida das comunidades. Expostos nas
ruas os produtos ficam em barracas ou no chão, espalhados sobre
tradicionais tecidos coloridos. As feiras são ponto de encontro de
homens, mulheres, idosos e crianças, que negociam, pechincham trocam
idéias e narram o dia-a-dia dos pueblos. Eles vestem suas melhores
roupas, acordam com os primeiros galos e começam o dia mais importante da
semana, em que vão tentar garantir a renda familiar, a comida dos filhos,
o sustento da casa.
Formigueiros de gente, nos mercados as vozes se
confundem, os aromas se misturam, as cores gritam aos olhos. Não é raro
ver turistas surpresos com a grande quantidade de mercadorias expostas - a
preços, por vezes, inacreditavelmente baixos dada a qualidade dos
materiais empregados.
O esmero na confecção de peças de roupa de lã de
vicunha (a mais cara), alpaca e lhama (a mais popular) é notável nas
costuras e no acabamento quase sempre impecável. As técnicas de
tecelagem passam de geração em geração. Para essas comunidades, o
trabalho artesanal jamais foi substituído.
Por necessidade e tradição, esses povoados isolados
conseguiram a façanha de manter-se incólumes à Revolução Industrial.
Os efeitos da dita globalização, então, só são percebidos por conta
da presença já inevitável de produtos chineses e artigos de
inconfundível procedência paraguaia. Quanto mais afastados dos grandes
centros, mais autênticos se mantêm esses mercados.
Embora as influências externas se façam presente,
ainda de maneira tímida, a tradição impera. Mantas, tapetes, ponchos,
saias plissadas, pinturas, máscaras, bijuterias, toda a sorte de ervas e
temperos, artigos de couro, de madeira e do que mais a imaginação possa
alcançar preenchem cada espaço dos concorridos corredores comerciais
improvisados. Também tem grande importância a comercialização dos
frutos extraídos da Pachamama, a "Mãe Terra" dos ameríndios.